Telas Susan Bello

O Ritual da Queima no Fogo

Setembro / Outubro 1987 – acrílico em papel

“Na religião hindu, Kali Ma é a deusa da criação e preservação, bem como a deusa da destruição. Nesta pintura, ela está me devorando. Em volta dela, há um colar de crânios, que são seus filhos. Sinto que meu sangue está sendo dado em sacrifício para alimentar seus filhos.”

Carl G. Jung nos diz que uma das imagens de descida é aquela do sacrifício de sangue. Ele diz que se o herói sobrevive a esse encontro com o arquétipo da mãe devoradora, ele ganha energia vital renovada, imortalidade, plenitude psíquica ou alguma outra dádiva. Na mitologia grega, o deus Cronus come seus filhos para que eles não criem uma Nova Ordem.

Há um ódio enorme tomando conta de mim. A energia de Kali simboliza o poder destruidor/criador que está reprimido em muitas mulheres que nos séculos passados se adaptaram a um modelo socialmente determinado de comportamento dependente, sedutor e guiado pelo sentimento de culpa. Só nos últimos cem anos é que a força da mulher começou a retomar contato com seu poder pessoal.

O impulso criativo pode oferecer um recipiente para o ódio e, assim, pode proporcionar o fogo necessário à transformação. O fogo exprime a liberação da libido para a criatividade cultural. No fundo, vemos uma série de longas estruturas brancas. São uma imagem repetitiva e têm algo a ver com a cura no futuro distante. O significado do símbolo evolui e se revela com o passar do tempo.

O Novo Caminho

Agosto, 1988, Acrílico sobre tela

“A Deusa está se ocultando, esperando o tempo propício para ressurgir, um tempo em que o mundo tenha necessidade dela e esteja querendo prestar-lhe atenção. Parece que o tempo de sua segunda volta chegou.”   –June Singer

A mulher espiritual de dois mil anos é uma figura mitológica que vive dentro do meu inconsciente. As ondas compõem pessoas com batas azuis em uma ordem espiritual dos tempos matriarcais, que serve à Deusa e vive nos Imalaias. Essa tribo submerge na dimensão do espaço/tempo e reemerge no mundo moderno para reintroduzir a cura através da Arte.

A imagem da força feminina segurando uma bengala com uma meia-lua na extremidade superior significa o culto à lua nas sociedades matriarcais durante os dias de adoração à Deusa, quando as pessoas ainda adoravam divindades femininas, as prostitutas sagradas. A adoração da lua é a adoração dos poderes fecundos e criativos da natureza que existem inerentes, instintivos e em unidade com a lei natural.

Essas mulheres estão voltando para procurar espaços onde implantar Arte espiritual na sociedade patriarcal e integrar os dons da mente inconsciente à consciência do novo milênio.

Eu considero esta pintura precognitiva porque, dez anos depois de pintada, estou, como na pintura, dentro de um edifício branco e alto, participando de um exposição de arte espiritual. Acredito que isso é uma demonstração do poder do símbolo para atuar sobre nossos desejos mais profundos.

A Pintura Espontânea pode ajudar tanto homens quanto mulheres do mundo moderno a saírem da restrição do pensamento lógico e demonstrável, que os condiciona e limita, possibilitando oferecer-lhes um Novo Caminho que aponte outras formas de inteligência, como a imaginativa, instintiva, espiritual, artística, criativa e emocional.

Necessitamos evoluir para um modelo holístico, que possa influenciar beneficamente a vida das pessoas e, num contexto planetário, trazer nova luz à humanidade.

Adão e Eva

Junho, 1990, Óleo e acrílico sobre tela

Esta deusa-mulher deve ser meu Eu Superior. Ela está assentada com um livro semelhante à Bíblia no colo. O homem verde aparece como uma potente força, brotando do chão para fora da Terra, juntando-se à deusa. A forma oval criada a partir de seus corpos transmite um sentimento de unidade e harmonia. Talvez o homem seja meu “muso”.

Roberto Assagiolo identificou dois estágios no trabalho psicoterapêutico:

  1. um período de “síntese pessoal”, no qual aspectos psicológicos são abordados e trabalhados;
  2. um período de “psicossíntese espiritual”, onde ocorre um processo de recentramento em torno de um “Eu Superior”, à medida que nos desidentificamos com a personalidade e nos reidentificamos com o centro espiritual.

Estados alterados de consciência podem expressar-se através da criação artística. O Artista é um canal. Acredito que esta é uma pintura precognitiva que direcionou meu espírito bem antes de seus efeitos, tendo sido registrada pela consciência. Dois anos depois de tê-la pintado, comecei a escrever o livro Pintando Sua Alma. Na época em que pintei este quadro, não tinha qualquer intenção de escrever o livro.

A Arte se expressa através da alma do artista. Albert Einstein em sua Teoria da Relatividade explorou a energia que deixa o “mundo real” e tem uma maneira diferente de organizar tempo e espaço. Acredito que “esferas mais altas” de consciência comuniquem-se conosco mais rapidamente através do canal criativo e uma de suas linguagens seja a da imagem simbólica.